Como sair do iFood sem perder clientes: plano de 90 dias
O passo a passo de 90 dias para migrar do iFood para o seu canal: a conta por pedido, como precificar em cada canal e quando NÃO vale sair.
Sair do iFood não é um ato de coragem. É uma conta, um plano e uma data. Quem sai no impulso — cansado da comissão, irritado com um repasse retido — costuma voltar em três semanas com o faturamento quebrado e a autoestima também. Quem sai depois de olhar três números e rodar um plano de 90 dias raramente volta.
Este guia é o irmão de execução do nosso artigo sobre como fugir das taxas do iFood. Lá a pergunta é "quanto isso me custa?". Aqui é outra: como eu saio sem perder os clientes que já são meus?
Antes de sair, os 3 números que decidem
Não existe resposta genérica. Existe a sua. Pegue os últimos 90 dias e levante três números — de preferência com um café e uma planilha, não de cabeça.
1. Quanto do seu faturamento vem do app. Divida o faturamento do iFood pelo faturamento total (balcão + salão + WhatsApp + app). Se o app é 20% do seu caixa, sair é uma decisão de margem. Se o app é 85%, sair é uma decisão de sobrevivência — e provavelmente a resposta é "ainda não" (volte na seção 8).
2. Ticket médio por canal. Some o valor dos pedidos e divida pela quantidade, separando iFood e canal direto. Quase sempre o ticket do app é menor: o cliente compara preço na vitrine, usa cupom, corta a sobremesa. Ticket baixo + comissão alta é a combinação que come a margem por dentro.
3. Quantos clientes são recorrentes. Conte quantos pedidos vieram de gente que já tinha pedido antes. Esse é o número mais importante do artigo inteiro. Cliente recorrente é cliente que você já conquistou — e pelo qual você continua pagando comissão todo mês. É esse cliente que migra. Cliente que pediu uma vez, viu o cupom e sumiu, não migra: ele é do app, não seu.
Regra prática: se metade ou mais dos seus pedidos no app vem de gente repetida, você está pagando comissão sobre cliente que já é seu. Aí a conversa muda.
A conta por pedido: R$ 100 no iFood x R$ 100 no seu canal
Os números do iFood abaixo são os publicados pelo próprio iFood no Portal do Parceiro (podem variar por região e categoria — confira o que aparece na sua conta).
| Em um pedido de R$ 100 | iFood plano Básico | iFood plano Entrega | Seu canal próprio |
|---|---|---|---|
| Comissão | 12% = R$ 12,00 | 23% = R$ 23,00 | R$ 0,00 |
| Taxa de pagamento online | 3,2% = R$ 3,20 | 3,2% = R$ 3,20 | taxa do seu meio de pagamento (Pix costuma ser a mais barata — confira com seu adquirente) |
| Quem paga a entrega | você | o iFood | você |
| Sobra antes da entrega | R$ 84,80 | R$ 73,80 | ~R$ 100 menos a taxa do seu meio de pagamento |
| Mensalidade | R$ 110,00/mês acima de R$ 1.800 de faturamento | R$ 150,00/mês acima de R$ 1.800 de faturamento | mensalidade fixa da plataforma, sem comissão por pedido |
| Quando o dinheiro cai | vendas apuradas por semana (seg–dom), repasse tradicional a cada 4 semanas, às quartas | igual ao Básico | conforme o seu meio de pagamento (Pix costuma cair na hora) |
Duas leituras honestas dessa tabela:
- No plano Entrega, o iFood fica com R$ 26,20 de cada R$ 100 — e em troca coloca um entregador na porta. Isso tem valor real. A pergunta não é "é caro?", é "eu consigo entregar por menos de R$ 26,20 nesse pedido?". Em ticket alto, quase sempre sim. Em ticket de R$ 35, muitas vezes não.
- No plano Básico, o iFood fica com R$ 15,20 e você ainda paga o motoboy. Ou seja: você já tem logística. Se você já entrega por conta própria, metade do trabalho de sair do app já está feito.
Tem ainda a taxa de serviço de R$ 0,99 a R$ 2,49 por pedido, cobrada do cliente e retida pelo iFood. Não sai do seu bolso — sai do bolso de quem come. Mas entra na conta do cliente, e é exatamente o argumento que você usará para trazê-lo pro canal direto ("no nosso site, sem taxa de serviço").
Se quiser rodar isso com os seus números em vez dos do exemplo, use a calculadora de taxas.
O fluxo de caixa também é uma decisão
Pouca gente coloca isso na conta e depois sente. Segundo o próprio iFood, as vendas são apuradas em períodos de 7 dias (segunda a domingo), e no plano de repasse tradicional o dinheiro cai a cada 4 semanas, sempre às quartas-feiras (existe repasse semanal, com condições específicas de contrato).
No canal próprio com Pix, o dinheiro entra praticamente no ato. Isso não é detalhe: é a diferença entre comprar insumo à vista com desconto e comprar no cartão do fornecedor.
E existe o cenário que ninguém planeja: o repasse retido. O iFood define "retido" como repasse travado por violação das regras da plataforma ou por ordem judicial (fonte). Quando 100% do seu faturamento passa por um canal que pode reter o pagamento, o seu caixa fica nas mãos de uma decisão que não é sua. Escrevemos separadamente sobre o que fazer quando a loja é bloqueada ou o repasse fica retido.
Plano de 90 dias
Ninguém sai do iFood num sábado à noite. Sai-se em três blocos de 30 dias, e o app continua ligado o tempo todo até o dia 90.
Dias 1 a 30 — montar o canal (sem desligar nada)
- Escolha a plataforma do seu cardápio digital e suba o cardápio completo, com foto em todos os itens campeões de venda. Cardápio pela metade é o erro nº 1 — o cliente entra, não acha o que quer, volta pro app e não tenta de novo.
- Configure pagamento Pix e cartão online, além de dinheiro na entrega. Se o cliente precisa te mandar mensagem pra combinar pagamento, você perdeu o pedido.
- Configure as zonas de entrega e o valor do frete por bairro, do jeito que você realmente entrega hoje.
- Rode 10 pedidos de teste com você, com a família e com dois clientes fiéis. Cronometre: do clique ao "pedido aceito" na cozinha. Se travar, conserte agora, não no dia 61.
- Coloque o link do seu canal em todo lugar: bio do Instagram, WhatsApp Business (mensagem automática), Google Meu Negócio (campo "Fazer pedido"), placa no balcão, QR Code na mesa se você tem salão.
- Defina quem cuida do canal. Nome e sobrenome. Não "a gente vê".
Dias 31 a 60 — migrar quem já é seu cliente
- Encarte na embalagem. Todo pedido que sai — inclusive os do app — leva um cartão com QR Code e uma frase curta: "peça direto com a gente e ganhe R$ X no próximo". Isso é permitido, é o seu produto e é a sua sacola.
- Cupom de primeira compra direta. Um desconto de boas-vindas, válido só no seu canal, só uma vez por cliente. Ele existe pra pagar a *mudança de hábito*, não pra ser desconto vitalício.
- WhatsApp com a base que você já tem. Quem já comprou no balcão, quem já ligou, quem já pediu no salão. Mensagem curta, sem corrente de marketing: "abrimos nosso pedido online; sem taxa de serviço, e o Pix cai na hora".
- Meça a migração toda semana. Quantos pedidos entraram no canal direto? Quantos vieram de gente que antes pedia no app? Se o número não sobe por três semanas seguidas, o problema é o canal (cardápio, foto, frete), não o cliente.
Dias 61 a 90 — decidir
- Refaça a conta dos 3 números do começo do artigo, agora com os dados novos.
- Escolha um dos três caminhos, com base no número — não no humor:
- Desligar o app: faz sentido se a maior parte do volume já migrou e o que restou no app não paga a comissão que você entrega.
- Trocar de plano: muita gente sai do plano Entrega (23%) e vai pro Básico (12%) usando o próprio motoboy que já contratou pro canal direto. É a "saída parcial" — mantém a demanda nova do app, corta 11 pontos de comissão.
- Ficar e usar o app pelo que ele faz de melhor: aquisição. Cliente novo entra pelo app, é servido bem, recebe o encarte, e na segunda compra vem direto. O app vira canal de topo de funil, não a sua casa.
Não existe prêmio por desligar. Existe prêmio por margem.
Como precificar em cada canal sem se sabotar
Aqui mora o erro que faz o plano inteiro naufragar: colocar o mesmo preço nos dois canais.
Se a pizza custa R$ 60 no iFood, o app fica com R$ 15,72 (plano Entrega: 23% + 3,2%) e você recebe R$ 44,28. No seu canal, R$ 60 são quase R$ 60. Se você cobra R$ 60 nos dois lugares, você está subsidiando o marketplace com a sua margem — e, pior, ensinando o cliente que tanto faz onde pedir.
A lógica correta é a inversa: o preço no app precisa embutir o custo do app. É assim que funciona qualquer canal com intermediário — a loja da fábrica não tem o mesmo preço da loja do shopping.
| Cenário | Preço no iFood | Preço no seu canal | Efeito |
|---|---|---|---|
| Preço igual nos dois | R$ 60 | R$ 60 | você paga a comissão do próprio bolso; o cliente não tem motivo pra migrar |
| Preço com o custo do canal embutido | R$ 72 | R$ 60 | a margem se mantém nos dois; o cliente vê vantagem real em pedir direto |
| Preço direto abaixo do custo | R$ 72 | R$ 42 | você "ganha" o cliente e perde dinheiro em cada pedido — insustentável |
A conta do meio do caminho, na prática: pegue o preço que te dá margem no canal direto e divida pelo que sobra do pedido no app. Com 23% + 3,2%, sobram 73,8% — R$ 60 ÷ 0,738 ≈ R$ 81. É a matemática pura. Na vida real você ajusta pra baixo (preço tem que caber na cabeça do cliente e na vitrine da concorrência), mas saiba de quanto é o desconto que você está dando. Dar desconto sabendo é estratégia; dar sem saber é prejuízo.
Duas travas de segurança:
- Não invente um preço absurdo no app só pra empurrar o cliente pro direto. O algoritmo do marketplace compara preços; produto caro demais some da vitrine, e aí você perde os dois canais.
- Não faça promoção no canal direto que destrói a margem. Cashback de 20% em cima de uma margem de 25% não fideliza ninguém — só transfere o problema da comissão pro desconto. Se você vai usar cashback, use como retenção calculada, não como leilão.
Como trazer o cliente que hoje é do app
Você não "rouba" cliente do marketplace. Você reconquista o cliente que já entrou na sua cozinha.
- QR Code na embalagem. É a mídia mais barata que existe: você já paga a sacola, o cliente já vai abrir. Um cartão impresso com QR + a frase certa ("sem taxa de serviço, e o cupom da primeira compra tá aqui") converte porque chega no momento em que o cliente está feliz — comendo.
- Cupom da primeira compra direta. Um valor fixo, uma vez, com validade. Ele compra a instalação do hábito. Depois disso, o que segura o cliente é comida boa e entrega no prazo — não desconto eterno.
- WhatsApp, mas com moderação. Lista de transmissão para novidade real (item novo, promoção do dia, "hoje tem"), nunca diariamente. WhatsApp queimado por spam não volta.
- Instagram e Google. Coloque o link do pedido na bio, no botão "Fazer pedido" do Google Meu Negócio e na resposta automática. Quem procura seu restaurante pelo nome já é seu cliente — não faz sentido esse tráfego cair na vitrine do concorrente dentro do app.
- Balcão e salão. "Da próxima vez, peça pelo nosso site, é o mesmo preço do balcão." Dito pelo atendente, com o QR na mão, funciona mais que qualquer anúncio.
O que não fazer: mandar mensagem privada pelo chat do app pedindo pro cliente sair da plataforma. Além de violar as regras, é o tipo de coisa que leva a loja a bloqueio — e você não quer descobrir o que é "repasse retido" na prática.
Quem entrega quando você sai
No plano Entrega, o iFood cuida da logística. Ao sair, isso volta pro seu colo. Existem dois caminhos, e o certo depende do seu volume.
| Motoboy próprio (fixo/contratado) | Agregador (Loggi, Lalamove, entregador por corrida) | |
|---|---|---|
| Custo | fixo por dia/turno — barato se o volume é alto, caro se está parado | variável por corrida — só paga quando vende |
| Previsibilidade | alta: você sabe quem vai entregar hoje | média: em pico e em chuva pode faltar entregador |
| Experiência do cliente | melhor — o entregador é a sua marca, conhece o bairro, volta no mesmo prédio | padronizada, mas impessoal |
| Complexidade | você gerencia escala, rota, atraso, uniforme | terceiro gerencia |
| Melhor quando | volume constante e concentrado geograficamente | volume irregular, começo de operação, hora de pico |
A escolha mais comum, e a mais sensata no começo, é híbrida: um motoboy fixo no horário de pico (onde o volume garante que ele não fica parado) + agregador como transbordo quando estoura. E o frete? Cobre-o do cliente de forma transparente por bairro. Frete grátis "no chute" é a forma mais rápida de transformar a economia de comissão em prejuízo de logística.
Os erros que fazem o lojista voltar correndo pro app
- Desligar o app antes de o canal próprio ter volume. Este é o erro que mata. O app fica ligado até o dia 90. Ponto.
- Cardápio pela metade no canal direto. Sem foto, sem descrição, sem os adicionais. O cliente compara com o app (que tem tudo) e volta.
- Ninguém aceitando o pedido. Pedido entrou às 20h12 e alguém viu às 20h40. Um pedido perdido no canal próprio custa dois: o de hoje e o da próxima vez.
- Preço igual nos dois canais. Zero motivo pro cliente mudar. (Ver a seção de precificação.)
- Prometer entrega que não cumpre. No app, a culpa do atraso é do app. No seu canal, a culpa é sua. Prometa 50 minutos e entregue em 45.
- Achar que "sair do iFood" é uma campanha. É uma operação. Precisa de dono, precisa de rotina e precisa de número medido toda semana.
Quando NÃO sair do iFood
Esta seção existe porque a resposta honesta nem sempre é "saia".
Não saia se a casa é nova e você não tem base de clientes. O marketplace entrega uma coisa que dinheiro nenhum compra rápido: demanda pronta. Gente com fome, com o app aberto, procurando pizza no seu bairro agora. Se ninguém sabe que você existe, a comissão está pagando aquisição — e aquisição é cara em qualquer canal. Fique, sirva bem, colete cliente, e reveja em seis meses.
Não saia se não há ninguém pra cuidar do canal. Canal próprio precisa de alguém que responde WhatsApp, aceita pedido, acompanha entrega e olha o número toda segunda. Se essa pessoa não existe (e não vai ser contratada), o canal vira um site abandonado com pedidos não aceitos — pior do que não ter.
Não saia se 100% do seu faturamento vem do app. Não porque é impossível, mas porque a ordem está errada: primeiro você constrói o segundo canal, depois avalia desligar o primeiro. Quem corta a única fonte de receita para "forçar" a migração está apostando o aluguel numa hipótese.
Não saia só por raiva. O ambiente do delivery está em movimento — o CADE notificou o iFood em 14/05/2026 por indícios de punir restaurantes que entraram na 99Food (rebaixamento no ranqueamento, exclusão de campanhas), e a disputa sobre cláusulas de exclusividade foi reaberta no fim de junho de 2026. Novos players entraram com condições agressivas de comissão — vale conferir a condição vigente de cada um direto com eles. Mas trocar um marketplace por outro não muda a estrutura: você continua alugando o seu cliente. O canal próprio é o único onde o cliente é seu.
Onde entra uma plataforma como a Zuper
Depois de rodar essa conta, o que sobra é uma necessidade bem específica: um canal de pedidos que seja seu, com cardápio completo, Pix, cupom, entrega por bairro e a lista dos seus clientes na sua mão — cobrando mensalidade fixa, sem comissão por pedido. É exatamente esse o desenho da Zuper, e é por isso que a economia aparece já nos primeiros pedidos: o custo não cresce quando você vende mais.
Se quiser entender o modelo antes de decidir, leia como funciona um delivery sem comissão e rode os seus números na calculadora.
Perguntas frequentes
É proibido colocar QR Code do meu site na embalagem de um pedido do iFood?
A embalagem é sua e o produto é seu. Colocar material da sua marca — cartão, ímã, QR Code do seu canal — dentro da sacola é prática comum. O que gera problema é usar o chat do aplicativo para pedir que o cliente saia da plataforma: isso viola as regras da plataforma e pode levar a bloqueio ou repasse retido. Faça a comunicação fora do app, na sua sacola e na sua mídia.
Quanto tempo demora pra ter volume no canal próprio?
Depende do quanto de base você já tem. Restaurante com salão movimentado, Instagram ativo e clientes recorrentes costuma ver movimento nas primeiras semanas, porque a demanda já existe — só está no canal errado. Casa nova, sem base, leva meses. É por isso que o plano é de 90 dias e não de 9: os dois primeiros meses são para colher, e só o terceiro é para decidir.
Posso ficar nos dois canais ao mesmo tempo?
Pode, e é o cenário mais comum entre lojistas maduros. O app fica como canal de aquisição (cliente novo, que você não teria) e o canal direto como canal de recorrência (cliente que já é seu). Para isso funcionar, o preço no app precisa embutir a comissão — senão você está pagando pra atender quem já era seu cliente.
Vale a pena trocar o plano Entrega pelo Básico em vez de sair?
Muitas vezes sim, e é a decisão mais subestimada. A diferença entre 23% e 12% de comissão é grande, e o preço é você assumir a entrega. Se você já vai montar logística própria para o canal direto, o motoboy já está contratado — usar o mesmo motoboy nos pedidos do app corta 11 pontos de comissão sem perder um único cliente. É a "saída parcial" que costuma dar o melhor retorno com o menor risco.
E se o iFood reter o meu repasse no meio da transição?
O iFood define repasse "retido" como o que fica travado por violação das regras da plataforma ou por ordem judicial. Se acontecer, o problema imediato é caixa: você vendeu e não recebeu. É precisamente por isso que a transição começa construindo o segundo canal antes de mexer no primeiro — quem tem um canal com Pix caindo na hora não fica refém de um repasse travado. Detalhamos o passo a passo em loja bloqueada e repasse retido.
Cashback no canal próprio compensa?
Compensa quando é calculado sobre a margem, não sobre o faturamento. Cashback de 5% em cima de uma margem de 30% é retenção barata — mais barata que 23% de comissão. Cashback de 20% em cima de 25% de margem é você pagando o cliente para comprar de você. Antes de ligar qualquer programa, saiba a sua margem real por prato. Sem esse número, todo desconto é chute.
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